6 de fevereiro de 2012

Budapeste

Bom, eu devo confessar que “Lista dos Mais Vendidos da Veja” normalmente tira qualquer vontade minha de ler um livro, já que é como se ele perdesse mais da metade do charme. É aquela história: isso é livro para qualquer um ler. Mas eu não consigo resistir ao nome “Chico Buarque” escrito embaixo do título. Comecei a ler pelo Chico, pensando “Nossa, para quem já escreveu tanta coisa linda, vai ver é um dos poucos casos que o sujeito figura na lista dos mais vendidos por sua qualidade, e não só pela propaganda”.

Merece? Sim. Budapeste não é nem de longe aqueles livrinhos babas que encontramos semanalmente na lista dos mais vendidos. Não é aquela “literatura-pronta-pra-beber” que ficou tão comum em épocas de Harry Potter e afins. É um trabalho digno do artesão que o Chico de fato é.

A premissa é bem interessante: um ghost writer relatando suas memórias, principalmente depois de que visitou Budapeste. No caso, ghost writer é o sujeito que escreve livros para que outras pessoas sejam reconhecidas pela obra. Através do protagonista, dá para se tirar muita coisa sobre a vaidade humana (bem como a forma com a qual lidamos com isso).

A narrativa é essencialmente psicológica e embora o livro seja dividido em capítulos, se tem a sensação de que o protagonista (José Costa) está contando tudo de uma vez só, como se fosse oralmente mesmo. Aqueles devaneios típicos de conversas, lembranças, cortes na narrativa… enfim, tudo lembra a fala de uma pessoa contando para outra sua própria história.

A escolha do narrador em primeira pessoa, assim como esse estilo de narrativa (que lembra muito a Mrs. Dalloway), a profissão do personagem e outros tantos detalhes (até a capa!), foram visivelmente escolhidos para se criar o efeito final da obra. É nisso que relembro a posição de artesão do Chico: ele não contou simplesmente uma história, ele trabalhou essa história. Sinceramente não ficaria surpresa se soubesse que toda a questão das idas e vindas do José Costa a Budapeste não passavam de fundo para esse exercício literário que é a obra.

Em suma, esse livro apresenta tudo o que se espera de um autor ao escrever: a inovação sem medo, o equilíbrio perfeito entre técnica e inspiração e, acima de tudo: esse dom de usar as palavras para emocionar, que o Chico já mostrou tantas vezes que tem.

“E a mulher amada, de quem eu já sorvera o leite, me deu de beber a água com que havia lavado sua blusa.”

Comente esse post no Fórum Meia Palavra.

Sem Artigos Relacionados.

Sobre Anica

Bacharel em Estudos Literários pela UFPR, Especialista em Ensino de Línguas Estrangeiras Modernas pela UTFPR, professora de Língua Inglesa e mãe. Tem uma quedinha descarada por filmes e livros de horror, de preferência os com zumbis. Pode ser encontrada também no .:Hellfire Club:., no Ministry of Zombie Walks e no Blog do Arthur.

Comentários

  1. Pips diz:

    É um dos livros que eu enrolo e enrolo para ler. E quando vejo a capa minhas unhas se auto-roem esperando que eu pegue e leia.

  2. Cabal diz:

    Pois é, sempre o vejo, sempre digo que vou comprar, e mais uma vez repito aqui minhas palavras!!!

Trackbacks

  1. [...] o público está interessado na obra de um autor tão denso como Chico (basta ler a obra anterior, Budapeste, para compreender o sentido de “denso”), mesmo que seja por causa do músico Chico [...]

Faça seu Comentário

*