Reflexões acerca de “O Senhor dos Anéis”

maio 13, 2008 – 7:30 pm
Por Colaborador Meia Palavra

Estava eu hoje, imerso em várias das minhas divagações e elucubrações artístico-filosóficas, que me acometem diariamente, quando comecei a sair de um universo para me adentrar em outro: o universo de J. R. R. Tolkien, uma viagem pelas alegorias e cogitações propostas pela obra O Senhor dos Anéis – lembrando que assisti aos filmes, porém não li a trilogia literária. Resolvi postá-las para não perdê-las em qualquer região inóspita do meu cérebro e, claro, para iniciar um possível e acalorado debate.

Tolkien construía a natureza humana de seus personagens de forma maniqueísta, o que é compreensível visto que ele era um católico fervoroso; muitos indivíduos, por forte influência religiosa, concebem o “Bem” e o “Mal” como essências postadas acima do homem. Isso se deve à relação das noções de bem e mal com, respectivamente, Deus e o Diabo. Essa concepção é perceptível em O Senhor dos Anéis. A guerra entre os povos civilizados da Terra-Média contra as criaturas e bárbaros asseclas de Sauron não só simbolizam uma aparente contraposição entre civilização e barbárie como também entre os tementes a Deus – povos católicos fiéis, portanto do “Bem” – e os infiéis, seguidores das “falsas” religiões e considerados cruéis e inumanos. Vai ver ele esqueceu de um termo chamado imperialismo, ou as próprias hordas de Sauron são os EUA subjugando as nações menos desenvolvidas – e tentando submeter também outras que são desenvolvidas, para afirmar seu poder bélico e econômico. Entretanto, essa é uma interpretação limitada, com cerceios. Sabe-se que Tolkien diabolizava a máquina e, portanto, a tecnologia avançada. Essa idéia dele é visível em sua obra pelo modo como ele retratava as máquinas, destruidoras graduais do meio ambiente e da civilização como a conhecemos, conduzindo-nos rumo ao caos. Obviamente, Tolkien edificou suas críticas e predições observando e julgando o mundo que se definia em sua época: com o poderio bélico de nações como EUA e URSS, dentre outras, crescendo exponencialmente devido aos avanços tecnocientíficos, poderio este exibido largamente em guerras e conflitos, exterminando pessoas muito mais numerosamente do que as lutas armadas de antigamente; através da degradação ambiental, incluindo a destruição de florestas para ampliar cidades, edificar indústrias armamentistas – mais uma vez a presença da guerra –, dentre fábricas de outros setores, ainda por cima gerando poluição atmosférica e fluvial – fumaça e dejetos químicos/orgânicos. Extremamente atual.

Isaac Asimov criticava duramente Tolkien pela visão provavelmente arcaica e maniqueísta que este tinha da ciência e da tecnologia. Asimov acreditava, mesmo não olvidando os impactos negativos da ciência moderna, que esta também traria consideráveis benefícios e avanços, como mais conhecimento, menos alienação, mais melhorias e eficiência, menos trabalhos árduos, mais justiça. Se não me engano, também foi Asimov que interpretou mordazmente os hobbits como uma representação ideal dos ingleses pacatos, habitantes estáveis e rechonchudos dos campos e lugares idílicos do Reino Unido, distantes da tecnologia em voga, porém alienados em relação à pobreza e aos conflitos violentos, desatentos do resto do mundo.
Voltando à natureza humana em O Senhor dos Anéis, é imprescindível afirmar que a falta de densidade psicológica, sem complexidade e zonas morais cinzentas, não esfacela a riqueza dos personagens. Os “mocinhos” da obra também possuem seus defeitos, angústias, medos, alguns detentores de um temperamento instável, irascíveis e/ou inseguros. Os próprios hobbits são quase anti-herois: glutões, de natureza alheia e sossegada, meio que indolentes e medrosos. Mas uma coisa é ter defeitos; outra coisa é balouçar-se entre o bem e o mal, possuir complexidade de ações e sentimentos que o tornem categoricamente humanos, acima de simplesmente heróis ou vilões, meros arquétipos. E aí entra o Um Anel, uma alegoria tanto do poder sobrenatural/demoníaco quanto do poder tecnológico. Atemo-nos à primeira interpretação, e daí surge o questionamento de cunho moral e existencial, com uma pontinha no metafísico: o Anel seduz utilizando-se das ambições e desejos recônditos das criaturas, para assim preservar sua existência. Como uma influencia diabólica, da qual o homem não é imune. Porém, alguns são, na sua essência, de mente mais fraca, débil e facilmente suscetível ao erro que outros. Estes são mais propensos à corrupção do Um. Então, isso os situaria numa zona cinzenta? Ou, levando em conta o maniqueísmo de praxe tolkieniano, estes já eram em seu âmago maus? Haveria um pendor, por parte do escritor da saga do Anel, a um desvelo mais agudo da alma humana, que infelizmente não foi aperfeiçoado?

(Este artigo é uma colaboração de Jorge Leberg)

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O QUE JÁ FOI COMENTADO:

6 comentários


  1. Gabriel em  14 mai 2008 às 12:19 am, disse:

    Bem, fica complicado tu querer analisar a obra do Tolkien apenas tendo visto os filmes. A tua visão acaba completamente condicionada pela visão de um terceiro da obra (neste caso, o Peter Jackson). E isso fica bem claro em trechos como “falta de densidade psicológica, sem complexidade e zonas morais cinzentas”. Ficando apenas no SdA (pois no Silmarillion os exemplos abundam ainda mais, como com Fëanor, Maeglin, Túrin, etc), há personagens completamente “cinzas”, como Denethor, Boromir, Saruman e o maior e melhor exemplo, Gollum. Gollum é inclusive uma manifestação física da dicotomia bem/mal coexistindo em um único corpo, o que torna o personagem naturalmente mais complexo.

    Os outros pontos que tu ressalta de um modo geral são válidos, embora mesmo o tom maniqueísta de Tolkien não seja tão bilateral assim, como esse personagens que citei acima mostram e que fica mais claro ainda com a leitura do Silmarillion, onde os personagens gravitam constantemente em as duas zonas, de “bondade” e “maldade”. Ainda assim, uma análise da obra de Tolkien propriamente dita só será realmente válida se feita em cima da própria, não de um construto cinematográfico paralelo (que banalizou muitas coisas e deixou outras rasas, além de distorcer personalidades de alguns personagens).

    Recomendo a leitura da obra, para aí sim poder ter uma visão objetiva do que Tolkien realmente trata e como. Ainda mais porque o SdA é muito, muito mais do que os filmes dão a entender.


  2. Jorge Leberg em  14 mai 2008 às 11:14 am, disse:

    Concordo com a sua opinião acerca do Gollum, Gabriel. Já postei em alguns fóruns que considerava-o o único personagem de OSdA situado numa vísivel e conflitante - devido à sua personalidade dúbia - zona moral cinzenta, simbolizano o constante e instável embate entre bem/mal que nos acomete. Ele sim é um personagem denso psicologicamente; deveria ter esclarecido esse ponto no meu artigo. Desculpe.


  3. kuinzytao em  14 mai 2008 às 12:11 pm, disse:

    Jorge Leberg, você comentou que só viu os filmes, mas cita a opinião de Tolkien sobre a máquina, e também de Azimov sobre Tolkien. Significa que leu sobre ele?
    Eu estou estudando Tolkien e agradeceria se citasse as fontes, pois está aí um encontro de dois titãs, que você cita como em lados opostos.


  4. Gabriel em  14 mai 2008 às 1:45 pm, disse:

    Como curiosidade, Tolkien menciona na carta 294 (8 de fevereiro de 1967) que, dentre as poucas obras modernas de literatura que ele aprecia, está a ficção científica de Asimov.


  5. Jorge Leberg em  14 mai 2008 às 8:56 pm, disse:

    Já li sobre Tolkien em fontes que não me lembro, kuinzytao. Afinal, são tantos textos/artigos que leio pela Net afora.


  6. ferreiro_romano em  04 out 2008 às 11:35 am, disse:

    Sua questão tem mais relação com seus questionamentos a respeito da dinâmica das questões e realidades do mundo & das religiões ocidentais do que própria mente com Ron Tolkien, ou qualquer coisa que se relacione ao escritor; P. Jackson (produtor-diretor dos filmes) deu apenas uma interpretação da obra, não o bastante para se chegar a falar sobre a obra, que tange morais e modos de pensar, bibliografias e estudos pessoais do autor de & em idades médias … Não é possível responder à sua questão. Está demasiado confusa, e mescla demasiadas fontes, colocando as culpas num nome (Tolkien) que apenas escreveu livros, que foram filmados por outra pessoa, que os interpretou à sua própria maneira … Interessante, sem dúvida, porém, apenas uma maneira, entre muitas possíveis. Esperemos que haja, ad futûrum, outras versões cinemáticas da obra, por outros produtores (…).



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