O Continente parte I - Érico Veríssimo

abril 17, 2008 – 8:41 am
Por Carol

Uma geração vai, e outra geração vem; porém a terra sempre permanece. E nasce o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar donde nasceu. O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo seus circuitos.
ECLESIASTES - 1, 4, 5,6.

Realidade e Ficção nunca estiveram tão juntas numa obra como na primeira parte da trilogia O Tempo e o Vento, do escritor gaúcho Érico Veríssimo. Por muitos a obra máxima do Rio Grande do Sul, e é sem dúvida a trilogia nacional mais conhecida.

Publicado em 1949, o romance conta a história do Rio Grande do Sul desde 1680 até 1945, através das famílias Terra e Cambará. O ponto de partida da trama é a chegada de uma mulher grávida na colônia de povoamento dos índios e jesuítas nas Missões. Ela dá á luz ao menino Pedro Missioneiro, que conhecerá Ana Terra, e dará início à linhagem dos Terras.

Ana e Pedro Missioneiro têm um filho (chamado de Pedro Terra), e logo que a família de Ana descobre a gravidez, seu pai e irmãos matam Pedro Missioneiro, para o desespero dela. Com o passar dos anos, aquela que sem dúvida é a maior heroína da trilogia reconquistou um pouco da confiança e respeito de sua família. Mas poucos anos após a morte de Pedro Missioneiro, uma nova desgraça acontece em sua vida: castelhanos invadiram a fazenda na qual ela morava, mataram seu pai e irmãos e a violentaram por diversas vezes. Esse foi o fato que a fez sair com seu filho e cunhada da fazenda e se mudar para a longínqua Santa Fé, lugar onde se desenvolve toda a trama com o passar dos séculos.

Certamente um dos traços mais interessantes de Érico Veríssimo é como ele descreve suas personagens femininas: sempre fortes, corajosas e sábias. E essas são as maiores características de Ana. Mesmo contra todas as probabilidades e numa terra estranha, ela cria seu filho Pedro. E com a profissão de parteira ajuda a trazer ao mundo inúmeras crianças de Santa Fé.

Pedro, desde sempre, tem a personalidade de seu avô materno. Calado e introspectivo, mas com as mesmas características de Ana: forte, corajoso e sábio. Ele, como a mãe, enfrenta batalhas árduas, diariamente, na “lida na roça”, e também em guerras.

Pedro se casa e tem uma filha, Bibiana. Ela é como a avó, mas não resiste à um certo Capitão Rodrigo Cambará, um anti-herói, despreocupado e livre como o vento. Assim, como Ana Terra, o Capitão Rodrigo é um dos personagens mais queridos por todos os admiradores da obra. Ele cativa Bibiana, os demais personagens e certamente o leitor, mesmo não sendo um exemplo em virtudes.

Contra todas as opiniões, Bibiana e o Capitão se casam. Por certo tempo a vida deles corre tranqüila, mas o gênio forte do Capitão (que é um homem “do mundo”) fala mais alto, e ele, entediado com a vida pacata de Santa Fé, começa a gastar o dinheiro que ganha com a venda que abriu em jogos de azar e em bebedeiras, para a tristeza de Bibiana, que essa altura já tinha duas crianças.

Entre bebedeiras, nascimentos e mortes, o tempo passa, e Capitão se regenera (por se sentir culpado pela morte da filha Anita), mas logo vem a Guerra dos Farrapos e ele parte para ela feliz.

Bibiana fica com seus filhos, sua dor e sua esperança de rever seu amado Capitão. E ela o vê, quando Rodrigo volta á Santa Fé para um ataque ao Sobrado (residência do Coronel Amaral, que tinha ideais diferentes aos da Revolução). Mas aquele a quem tanto amou acaba morrendo nesse ataque, com um tiro no peito.

Na parte final do livro “A Teiniaguá” conta a história de Luzia, Bolívar e Florêncio (primo de Bolívar). Luzia é a neta de um agiota que se estabelece em Santa Fé. Ela é má e sádica, como a teiniaguá, uma lenda gaúcha que conta de uma princesa moura transformada em cobra com cabeça de diamante que gosta de ver os outros sofrerem, mas sua beleza atrai todos os homens, incluindo Florêncio e Bolívar.

Ela se casa com Bolívar, que volta da guerra muito perturbado. Aos poucos eles se afastam dos amigos. Após uma severa discussão com Bibiana, Luzia se tranca no seu quarto (no Sobrado, que foi construído no terreno de Pedro Terra, onde Luzia e seu avô moravam e que depois do casamento virou a residência de Bolívar e Bibiana) por causa de uma epidemia de cólera. Como eles estão de quarentena no Sobrado, obra de vingança do Coronel Bento Amaral por ser Bolívar filho do homem que lhe marcou o rosto, Bolívar sai atirando do Sobrado contra os homens que lhe prendiam humilhantemente em casa e cai morto, enviuvando Luzia e deixando órfão de pai seu filho Licurgo.

“A Guerra” conta a história dos anos finais da vida de Luzia e sua disputa com a sogra pelo amor de Licurgo enquanto o menino cresce. Luzia sofre com um tumor no estômago, e com isso faz o filho sofrer, com uma espécie de tortura psicológica. Ela, ao final, perde a guerra não declarada, pois queria que o filho fosse para a cidade, e Licurgo continua em Santa Fé. Alguns anos depois da morte de Luzia vemos Licurgo já mais velho e amadurecido trabalhando em Santa Fé com seu melhor amigo, o jornalista Toríbio, pela proclamação da República, enquanto envolvido com o casamento com a tímida prima Alice, filha de Florêncio Terra. No entanto, Licurgo tem uma amásia, Ismália, uma china (mulher da vida) que é submissa a ele, situação essa que lhe é agradável, tanto que permanece assim por anos. A luta pela República enfim tem sucesso, mas a rivalidade dos Terra Cambará com os Amaral continuará com Alvarino e Licurgo, como antes fora com Bento e Rodrigo. As continuações da trilogia são: O Retrato e O Arquipélago.

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O QUE JÁ FOI COMENTADO:

10 comentários


  1. Ágata em  17 abr 2008 às 10:10 am, disse:

    Esse texto me deixou morrendo de vontade de ler O Tempo e o Vento. Parece ser uma trilogia daquelas… e em alguns pontos, pelo menos da estrutura geral, me lembro de A Leste do Éden (ou será que eu estou viajando?). De qualquer jeito, parabéns Carol pelo texto!

    =***


  2. Pips em  17 abr 2008 às 12:18 pm, disse:

    Capitão Rodrigo é um dos personagens mais memoráveis da Literatura brasileira. Orgulho de tê-lo conhecido. Ainda preciso ler os demais livros, mas livros é o que não falta pra ler!


  3. kuinzytao em  17 abr 2008 às 1:43 pm, disse:

    Belo trabalho Carol. Conseguiu passar o clima da obra. Parabéns.


  4. Carol em  17 abr 2008 às 8:06 pm, disse:

    Valeu, Zi! ^^


  5. Cleo em  21 abr 2008 às 7:07 pm, disse:

    Não só o Continente, mas todo O Tempo e o Vento é monumental.

    Bom trabalho mesmo. A maioria das pessoas quando vai falar dessa grande saga só se lembra do Cap.Rodrigo, mas o Érico merece crédito pela penca de personagens secundários geneias que habitam Santa Fé. Babalo, Don Pepe, Tio Bicho, Fandango…

    Espero sua resenha dos outros livros também ^^


  6. amélie em  25 abr 2008 às 2:35 pm, disse:

    sabe que achei um livro do capitão Rodrigo pra vender bem baratinho? Vou ler e depois comentar com o filme :)

    Obrigada pela dica Carol :)


  7. amélie em  25 abr 2008 às 2:35 pm, disse:

    errr… desculpa! livro não… Filme!!! Achei o filme pra vender!


  8. **Maniaca do Miojo** em  26 abr 2008 às 6:43 pm, disse:

    Puxa que legal =D
    é muito bacana como o Erico conta a história do RS num romance, estou lendo Incidentes em Antares e estou achando bem divertido também =]
    Parabéns Carol o texto ficou muito bom!!!


  9. ana carolina em  08 mai 2008 às 6:41 pm, disse:

    eu quero ler o livro o tempo e o vento de erico verissimo


  10. Maria em  15 jun 2008 às 10:38 pm, disse:

    O Tempo e o Vento eh pura poesia, os personagens sao extremamente cativantes por causarem uma empatia imediata no leitor. Erico fez as melhores descricoes psicologicas e de ambientes deste nosso Brasil, sem duvida!



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